Os irmãos Zé Maria e Diá, de Mossoró/RN

postado em 27 de jan de 2015 10:13 por Chico Simões

Na Caravana temos notado que, em muitos lugares, os mestres tradicionais não recebem mais convites para brincadeiras, sobretudo por parte dos órgãos públicos e das escolas. As “autoridades” consideram que seu trabalho não é adequado para as crianças, em função da violência apresentada em grande parte das cenas, e, também, em razão do humor que atinge os poderosos, mas também os oprimidos. Temos debatido muito essa questão. Se, por um lado, entendemos que a sensibilidade atual é muito mais crítica a qualquer manifestação de racismo e misoginia, por outro, compreendemos aspectos do universo mental dos brincantes tradicionais do teatro popular de bonecos e as dificuldades de adaptação das peças à contemporaneidade, sem o comprometimento de sua expressividade.

A maioria dos mestres têm incorporado as críticas que recebem. Outros, até mesmo, propõem transformar as apresentações em peças de propaganda ambiental ou introduzir falas com caráter mais “pedagógico”. Quase sempre com resultados desastrosos. Estamos numa verdadeira encruzilhada. Mas acreditamos ser possível manter a força vital do teatro popular de bonecos utilizando seu poder de crítica contra as desigualdades e opressões que ainda afligem o público dos espetáculos tradicionais. Precisamos encontrar um modo melhor de mediar esse debate para que injustiças não aconteçam.

Foi o que ocorreu com os irmãos Zé Maria e Diá. Os dois, há tempos, não são convidados pelos agentes culturais locais para trabalhar, restringindo suas atuações às comunidades rurais e ao assentamento onde um deles reside. De linhagem nobre e tradicional dentro do João Redondo (os dois eram primos de Chico de Daniel), esperamos encontrá-los reintegrados ao circuito cultural oficial quando regressarmos.

 

Este projeto foi contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2014

Toinho, o das televisões mudinhas

postado em 27 de jan de 2015 09:28 por Chico Simões

Em Mossoró/RN conhecemos o bonequeiro Toinho. Relativamente novo no ramo, trabalha com a esposa, Genildo, que nos levou à sua casa maluca na zona rural da cidade, onde curtia mais um final de semana de construção e reconstrução infinita do seu cantinho de paz, junto das pombas, lagartos e outros bichos. Seu espaço é cheio de televisões, aparelhos de telefone, fax, interfones e outras bugigangas eletrônicas. “Mas aqui elas ficam desligadas, viu? Ouvindo os passarinhos, bem mudinhas”.

Apresentando-se regularmente na cidade e região, com grande aceitação do público, sua trajetória é interessante e diferenciada dos demais calungueiros que conhecemos, pois começou a brincar quando ainda residia em Roraima e foi convidado para uma oficina em Manaus/AM. Identificou-se imediatamente e, desde então, constrói seus próprios bonecos escreve seus textos, embora mantenha muitos personagens e passagens tradicionais do teatro de João Redondo.

Ficamos de voltar um dia, para ver seus bonecos, que desrespeitam a todo momento e deixam doida a diretora do espetáculo e curtir sua casa de veraneio. Ah, levaremos também alguns aparelhos para ficarem calados, enquanto os bonecos contam suas histórias.

 

Este projeto foi contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2014

A grande família de Chico de Daniel

postado em 27 de jan de 2015 09:11 por Chico Simões

Daniel era grande e gerou Chico, que, segundo o costume, virou Chico de Daniel. Chico de Daniel gerou Josivan, outro Daniel (Daniel de Chico de Daniel) e Toinho, todos calungueiros, além de Cici e outros seis filhos, criados quase que só com recursos provindos da lida com os bonecos. Todos, também, ciosos da memória do pai, já registrada largamente em estudos acadêmicos, matérias de jornal, documentários (https://www.youtube.com/watch?v=jdE47ZFa4Bk), pois, para muitos, o potiguar de Assu, Chico de Daniel, foi o maior bonequeiro popular do Brasil. Até Ariano Suassuna, paraibano/pernambucano, conhecedor profundo do mundo dos babaus e dos mamulengos, parentes dos calungas, chegou a afirmar que Chico era, sem dúvida, um dos maiores bonequeiros do Brasil.

No dia 17 de janeiro fomos ao encontro de seus herdeiros no Sítio Acauã, município de Itajá/RN, onde residem, depois de uma temporada no Bairro Felipe Camarão em Natal. A chegada deles à capital do Rio Grande do Norte, após mambembar por anos entre os estados de Pernambuco, Piauí e Maranhão foi uma verdadeira epopeia, que merece ser melhor contada em outro momento. O relato por alto, narrado por Josivan, que era criança e fez essa viagem, deixou-nos boquiabertos. A volta de Chico de Daniel ao Rio Grande do Norte impressionou a todos, inclusive Deífilo Gurgel, que organizava há algum tempo memoráveis encontros de João Redondo, onde figuravam com destaque os irmãos Relampo, dentre outros muitos.

Recebidos regiamente com as fartas e deliciosas refeições preparadas por Maria Lúcia e Ana Patrícia, esposas de Josivan e Daniel, respectivamente, pudemos relembrar a história do Mestre, ver sua mala de bonecos, e os bonecos dos filhos, já reconhecidos como grandes brincantes e seguidores do estilo do pai. Os netos, também muitos, o tempo todo estão presentes, curiosos sobre as histórias dos bonecos e sobre nossas atividades. Muitos, como Vaninha, quiseram aprender a fotografar e parte dos registros aqui publicados são deles.

À noite, apresentamos o Mateus e o Romance na praça de Itajá/RN ao lado dos irmãos e fomos assistidos pela ex- esposa de Chico de Daniel, seus netos e amigos. Uma honra brincar assim, na terra dos grandes.

 

Este projeto foi contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2014

Gilberto Calungueiro, do tempo que o ingresso custava um palito de fósforo

postado em 26 de jan de 2015 11:15 por Chico Simões

“O fósforo era tão caro pra nós, que minha mãe partia um palito ao meio para render mais a caixa. Ficava fula quando molhava a ponta e a faísca era falha. Então, quando eu comecei a brincar os calungas, ainda pivete, cobrava um palito de cada criança pela entrada. Quando meu pai viu três caixas de fósforo acumulada, disse: ‘A coisa tá miorando, hein?! Pode continuar’.” Assim, o mestre Gilberto Calungueiro, de Icapuí/CE, narrou o início de uma das mais longas carreiras na arte dos bonecos populares do Brasil. As histórias fluem tão gostosamente que até seus filhos presentes, um deles, também calungueiro, pedem que ela as repita mais e mais vezes.

“Pescador e brincante de João Redondo tem que saber contar história, né meu filho?”. E, assim, vieram a do dia em que o filho do delegado atirou no boneco que tinha o mesmo nome que ele; a do brincante que não sabia trabalhar com os bonecos e, depois de recolher o pagamento, fugiu pela janela; a da velha que morreu momentos antes da apresentação e, mesmo assim, a família pediu que ele brincasse; a do dia em que ele um amigo enganaram um homem da cidade que não sabia diferenciar uma anchova de um peixe ruim... histórias sem fim.

 

Este projeto foi contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2014

Mestre Pedro Cabeça de São Rafael/RN

postado em 19 de jan de 2015 11:53 por Chico Simões

De nossa base em Caicó/RN migramos para o pólo de Mossoró/RN. No meio da viagem passamos por São Rafael/RN para conhecer o Mestre Pedro Cabeça, que não tínhamos ainda encontrado nas nossas andanças destes 30 anos do Mamulengo Presepada. A viagem tem sido importante por essas revelações, ajudadas pelo trabalho prévio de identificação dos mestres em atividade como parte do processo de inventário do Teatro de Bonecos Popular do Nordeste como patrimônio imaterial. Os responsáveis foram nossa amiga Graça, auxiliada luxuosamente pelo mamulengo Raul, de Natal. Os bonecos do mestre encontram-se em mito bom estado, depois que Raul dos Mamulengos levou-os para restauro e foi muito lembrado durante a conversa.

Afastado por problemas na visão, Pedro Cabeça não brinca mais os calungas, mas prometeu cuidar da saúde e formar novos brincantes para manter a linhagem do João Redondo na região, que teve como referência, antes dele, um brincante chamado Zé Redondo. Por lá também passaram os irmãos Relâmpago, conhecidos no estado do Rio Grande do Norte por sua linhagem nobre na arte dos bonecos. Nesse tempo, as brincadeiras se concentravam na área rural, no período das colheitas. As famílias se reuniam nas casas de algum sitiante ou fazendeiro, que permitia que os calungueiros cobrassem alguns tostões pela apresentação, que era feita com a amarração de um pano nos cantos de parede.

Entre a visita e nossas apresentações na Praça da Cidade, à noite, pudemos visitar as ruínas de São Rafael velha, que foi inundada para a formação de uma grande barragem que abastece toda a região. Agradecemos o apoio dado pela secretária de Educação e Cultura, Paula e ao Mestre Pedro que, mesmo sentindo tonturas, foi até a praça prestigiar nossa rápida passagem.

 

Este projeto foi contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2014

O bonequeiro cubista e o dia em que as malas se abriram no sertão do Seridó

postado em 19 de jan de 2015 08:04 por Chico Simões

O dia 14 de janeiro foi um dos mais intensos e ricos de nossa viagem até agora, com visitas aos mestres tradicionais Manoel do Fole e Manoel de Dadica, de Cerro Corá/RN, que têm Paulo Roliço como suas referências maiores. Visitamos ainda o Museu, que guarda a mala de bonecos do lendário Bastos Calungueiro, o maior da história na região, encontrada numa feira de trocas por uma pesquisadora e doada ao acervo. Finalizamos a mini-maratona com as apresentações do Mateus e do Romance na Praça Santo Cristo em Currais Novos/RN, em companhia do Grupo Caçuá de Mamulengos.

Como guia e companheiro desta jornada, tivemos Francinaldo Moura, um jovem bonequeiro de grande importância para seu estado. Chegando à sua casa, pela manhã, pudemos tomar contato com as inúmeras atividades artísticas que desenvolve além dos mamulengos, a música e a pintura. Com sua ajuda soubemos do acervo de bonecos de Bastos e encontramos também referências bibliográficas importantes sobre os Calungas e o João Redondo, modo como o brinquedo é chamado localmente. Após o almoço, partimos para a cidade vizinha de Cerro Corá onde, a tarde toda, os mestres generosamente abriram suas malas e contaras as histórias e detalharam as características de cada um de seus personagens. A profusão de risos foi o resultado inevitável do encantamento e do arrebatamento causado pela entrada dos bonecos em cena.

Manoel do Fole, apesar de ter se convertido à religião evangélica e, em função disso, enfrentar agora um contexto aparentemente adverso para a prática de sua arte, soube contornar a situação e até já brinca com sua esposa durante os cultos. Ficou animado com nossa visita, apesar de reclamar da falta de convites e de oportunidades para seu trabalho, e prometeu na abandonar a tradição.

Manoel de Dadica, conhecido também como homem mola em função de suas grandes habilidades como contorcionista, constrói bonecos em profusão e alimenta com essa atividade uma família extensa.

 

Este projeto foi contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2014

Ricardo Guti (Folguedo Folgado), de Brasília até o Caicó de Catarina Medeiros, o Mestre Zé Eustáquio mais o Caçuá de Mamulengos

postado em 13 de jan de 2015 16:09 por Chico Simões

No dia 11 de janeiro chegamos a Caicó/RN e fomos recebidos pelo nosso amigo mamulengueiro Ricardo Guti, que deixou Brasília recentemente para não se sabe bem o quê, mas que acabou passando em primeiro lugar num concurso para dar aulas de teatro pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte, onde conheceu sua amada Catarina Medeiros, artista plástica Ipueirense. Ele nos mostrou parte de seu importante trabalho de pesquisa (ver http://folguedofolgado.blogspot.com.br/).

Seguindo a trilha dos calungas nas pistas de Guti e Catarina fomos até o Sítio Sacramento, na Serra do Mulungu, município de São João do Sabugi/RN, onde encontramos o Mestre José Eustáquio, 95 anos de muita lucidez. Mesmo não brincando mais o João Redondo pôde nos contar diversas histórias sobre essa tradição de bonecos da região. Benedito, Margarida e a Cobra, dentre outros, eram alguns de seus principais personagens, assim como são os nossos calungas no Mamulengo Presepada. O espírito aceso e a força do velho mestre o levantaram da rede inspirando a todos. Desse papo ficou acertado a volta de Guti e Catarina para uma apresentação do Folguedo Folgado.

À noite, mais coisa boa. A convite do brincante Francinaldo Moura, do grupo Caçuá de Mamulengos, de Currais Novos/RN, fomos assistir sua apresentação na cidade de São José do Seridó/RN e rimos a valer com a Alma de Michael Jackson e com a cena do Barbeiro. De quebra, conhecemos o amigo Roderick, que nos apresentou suas pesquisas sobre as rabecas na região e marcamos coisas boas para a sequência de nossa Caravana. Caravamos em frente que o sertão vai virar mar...

 

Este projeto foi contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2014

Bérando o Catolé do Rocha, onde o homem bode berra

postado em 12 de jan de 2015 12:03 por Chico Simões

Saímos temporariamente de Pernambuco e entramos rapidamente em Paraíba com destino ao Seridó norteriograndense (voltaremos aos dois estados ainda durante a viagem). Desta vez, levamos os babau para posar no Instituto Cultural Casa do Béradêro, criado pelo músico Chico César em sua cidade natal, Catolé do Rocha, junto com a Irmã Iracy Barboza de Almeida. Ajudados por Aline Fernandes, Dib e Tamisson, que realizam um excelente trabalho com a arte e a cultura regional (http://www.casadoberadero.org.br/) pudemos apresentar nossas presepancias na Praça José Sérgio Maia. O bicho pegou, o calor arretou e o sertão se impôs de vez no nosso percurso. Passamos por Brejo da Cruz e vimos que a novidade não é mais a criançada se alimentar de luz. A cada passo constatamos o quanto o Nordeste mudou. Mas, para melhor.

Triunfo e Santa Cruz da Baixa Verde, flores do Alto Sertão do Pajeú/PE

postado em 12 de jan de 2015 11:27 por Chico Simões

Continuando nossa passagem pela Serra Talhada pernambucana, seguimos com a presença do Mamu Sebá e com o apoio do Sesc para as cidades de Triunfo (08/01) e Santa Cruz da Baixa Verde (09/01), onde apresentamos o Mateus da Lelé Bicuda e o Romance do Vaqueiro Benedito na Praça do Açude e em frente à igreja do Padre Ibiapiana, respectivamente. Clima agradável de montanha, cidades lindas, incrustadas na serra, hospedagem no Lar Santa Elisabeth (convento e escola local), visitas ao Pico do Papagaio e ao Engenho... Quase nem deu pra perceber que estávamos trabalhando. Sentimos mais como se fôssemos turistas, como os muitos que aproveitavam as delícias, a tranquilidade e a hospitalidade pernambucana. Abraços a Aurilene, Erik, Zé Doido e todos os funcionários do Sesc. Com Séba, marcamos uma nova presepada para o dia 08 de fevereiro, desta vez no seu espaço, em Caruaru, junto com o Boi e com o Mestre Zé Gomes, construtor de maravilhosos bonecos de ventriloquia.

A chuva na Vila Bela do Pajeú, terra de Lampião, e o Mamu Sebá

postado em 9 de jan de 2015 05:46 por Chico Simões

Serra Talhada/PE, antiga Vila Bela do Pajeú, foi palco de importantes acontecimentos da história brasileira. Berço do maior expoente do Cangaço, Virgulino Ferreira, hoje é conhecida como a Capital do Xaxado, sobretudo em função do trabalho incrível realizado por Anildomá Willams, Cleonice Maria, Karl Marx, Carlos e todos os outros membros da Fundação Cabras de Lampião. Foi neste ponto de cultura, um dos mais emblemáticos surgidos do movimento Cultura Viva, que fomos recebidos para uma concorrida oficina de manipulação de bonecos.

Pudemos nos reunir e conversar também sobre os preparativos do Encontro de Culturas Populares e Tradicionais, que acontecerá de 15 a 20 de setembro neste cidade.

À noite, fizemos apresentações do Mateus da Lelé Bicuda e do Romance do Vaqueiro Benedito no Bairro Vila Bela, junto com a Banda de Pífanos local e o grupo feminino de xaxado As Belas da Vila, apresentamos para um público caloroso e ávido por cultura, que nem a chuva abençoada fez arredar pé.

Contando com o apoio do Sesc de Triunfo/PE, conseguimos receber o Mamu Sebá, do mamulengueiro Séba, de Caruaru/PE, que também nos acompanhará nos próximos dias em apresentações na Praça do Açude (Triunfo/PE) e em frente à igreja (Santa Cruz da Baixa Verde).

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